sábado, 15 de janeiro de 2011

OITAVO TRECHO - SAN PEDRO DE ATACAMA - SALTA






















O trecho
Treze de janeiro de 2011. De volta para a Argentina. De San Pedro de Atacama a Salta. Cerca de seiscentos km. Duas alfândegas. Grandes variações de temperatura.
Como o sétimo trecho – a ida para San Pedro –, mesmo mais curto, foi muito desgastante, havia certa apreensão com relação ao cansaço nesta viagem.
Surpreendentemente, a volta foi mais tranqüila que a ida e machucou menos, ainda que rodados duzentos km a mais.
Em verdade, o cansaço não vem só do número de km que se roda, mas de uma série de outros fatores. Por exemplo, fazer alfândega depois de uma viagem cansativa, com temperatura alta, “quebra as pernas” do vivente. Foi o que ocorreu quando chegamos em San Pedro.
Saímos às 8:15h. do hotel. A temperatura era de uns 12° Celsius à sombra. No sol, um poquito más. Chegamos à alfândega cinco minutos depois e pegamos uma fila que tinha umas vinte pessoas, mais ou menos.
Suerte! Ainda não tinham chegado as vans dos diversos passeios na Bolívia, nem o ônibus dos peruanos.
Parece que algumas linhas regulares do Peru para a Argentina passam pelo Chile. O resultado é uma fila imensa de peruanos em San Pedro. Às vezes é possível evitá-los, chegando à alfândega no horário de abertura – ela funciona das oito às vinte e três horas.
Além da fila pequena, nos foi dito – ufa! – que não havia qualquer formulário a ser preenchido. Fizemos a alfândega rapidamente, com atendimento cordial, e fomos à aduana (no mesmo prédio). Aí, a fila era mais comprida. A do lado, no entanto – a da alfândega –, tinha quintuplicado de tamanho. Nesse meio tempo, chegaram dois ônibus de peruanos... Além disso, também chegaram as vans com os turistas da Bolívia.
Na aduana – que se faz para liberação dos veículos –, havia muitos caminhões cegonha esperando autorização para seguirem em frente e houve certa demora. Até que um funcionário da alfândega veio até a fila e nos perguntou se estávamos de salida. Como estávamos, pegou os formulários das motos e da camionete do Zé, acompanhou-nos até o local onde estacionamos os veículos, fez a conferência das placas (só isso na saída – não há qualquer exame de bagagem) e nos liberou.
Depois de colocarmos os forros (porque pela manhã é bem frio na alta montanha), saímos às 9:15h, com agradáveis 19° Celsius. O Zé já tinha começado a subir o aclive de quarenta km do início da Ruta.
Subimos rapidamente e logo estávamos a mais de quatro mil metros de altitude.
E a temperatura baixou. Bastante.
O termômetro da minha moto chegou a marcar 5° Celsius. Três brasileiros – todos de BMW – disseram que os termômetros das motos deles acusaram 3° Celsius de mínima. Vimos riachos congelados e flamingos encolhidos se protegendo do frio.
Esqueci de trocar a luva. Estava com as de couro, que têm uns furinhos para ventilação. Resultado: os meus polegares começaram a congelar. Em todo o trajeto mais frio, mexi muito os polegares e cheguei a dar tapas no peito para aquecer as mãos. Sem o aquecedor de manoplas, estaria literalmente numa “gelada”.
Mesmo com os polegares gelados, não deixei de apreciar a paisagem maravilhosa dos Andes. E a viagem no asfalto perfeito, com movimento de veículos próximo do zero, foi realmente um passeio. Chegamos rapidamente ao Paso de Jama, a alfândega argentina, por volta de 10:40h., com temperatura de 14° Celsius. Cento e sessenta km rodados em uma hora e vinte e cinco minutos. Nada mal.
A alfândega e a aduana foram tão tranqüilas que chegaram a dar tédio. Além dos três brasileiros de moto, não havia mais ninguém, só eu e o Otávio. O Zé ficou para trás, mas apareceu logo e também passou pelos procedimentos rapidamente. Os funcionários argentinos foram extremamente solícitos, pacientes com o nosso irritante portunhol e muito simpáticos. A vistoria de bagagem – mesmo na camionete – foi bem superficial e só pró forma.
Saímos e logo paramos no posto ao lado dos escritórios de fronteira argentinos. Eram 11:30hs. Abastecimento (inclusive do galão que está na camionete, para qualquer eventualidade...) e lanche. Lanche! Foi ótimo porque optei por não comer nada – só um chá – e estava precisando.
Parada de meia-hora. Retomamos a Ruta às 12:00hs.
Tocada tranqüila até Susques, com 271 km rodados desde San Pedro. Chegamos mais ou menos às 13:00hs, com temperatura de 20° Celsius.
Ali no restaurante tive a primeira notícia péssima da viagem: a tragédia do Rio de Janeiro, o que entristeceu a todos.
Até quando vão continuar a ocorrer tais tragédias no Brasil? O que é pior, tragédias evitáveis. Mas não vou escrever disso aqui. Só fica o inevitável registro.
Almoçamos e retomamos a viagem às 14:10hs. Temperatura de 23° Celsius. Já sem os forros, porque a previsão era de que a temperatura não baixaria mais tanto como no Chile.
E não baixou. Mesmo na alta montanha da volta – 4.200 mts., a 33 km de Purmamarca – chegou a tranqüilos 17° Celsius.
Antes da nova montanha, enormes trechos desertos – e de deserto – com retas intermináveis. Como as motos estavam rendendo muito bem, com baixo consumo e sem perda de potência (O Otávio, que é especializado em motores, não soube explicar exatamente o que se passava), resolvi dar uma esticada. A moto atingiu, sem maiores dificuldades, os cento e noventa km por hora. Absolutamente estável, neutra, com o giro do motor dentro da margem de segurança. Tudo isso com garupa e bagagem. Essa moto é mesmo uma estradeira espetacular!
Falando nisso, a subida e descida desse trecho de montanha foi um espetáculo à parte.
Faço uma pergunta: você já não pegou a mesma estrada em sentido inverso e teve a impressão que estava em um lugar completamente diferente? Pois essa foi a sensação nas vizinhanças de Purmamarca. Parecia mesmo outra Ruta, muito mais bonita que a da vinda.
Não me lembro de ter viajado em nenhuma estrada tão espetacular, tão espantosa, com uma natureza tão exuberante, como a do referido trecho. As tais multicores das montanhas e da Quebrada de Humauaca apareceram com tudo. Ora verde, ora vermelha, ora amarela. Ornamentadas de cactos. Ficava até difícil se concentrar na estrada com tanta beleza em volta.
Mas eu me concentrei. Porque se você não se concentrar, fácil, fácil, sofre um acidente nas incontáveis curvas de noventa, cento e vinte e cento e oitenta graus que a estrada tem nas proximidades de Purmamarca.
Fizemos muitas imagens. Paramos, fotografamos e gravamos vídeos do Otávio e da Inha descendo. Eles fizeram o mesmo com relação a nosotros. As imagens serão trocadas oportunamente, com entrega simultânea dos disquetes... Porque eu pago qualquer preço para ter tais registros!!!!
Chegamos em Purmamarca, com 404,5 km rodados, às 16:00hs. A temperatura era de 25° Celsius. Mas ela iria subir mais. Muito mais.
Paramos para esperar o Zé e esticar as pernas. Ele chegou logo e já saímos, às 16:15hs., com destino a Jujuy.
Aí a tocada ficou um pouco mais lenta, porque entre Purmamarca e Jujuy – capital da província do mesmo nome – o trânsito aumentou muito. Ainda descemos montanha, tendo como pano de fundo um vale muito verde. Descemos em fila indiana, porque os pontos de ultrapassagem simplesmente sumiram.
Os controles policiais começaram a aparecer. Entre Purmamarca e Jujuy foram três, mas não nos pararam nenhuma vez. A camionete acabou por ficar para trás, porque as motos são evidentemente mais ágeis nas ultrapassagens agora difíceis. Esperamos o Zé no acostamento, nos arredores de Jujuy. Ele demorou um pouco mais, mas chegou bem. Paramos em um posto – da Petrobrás, mas com outro nome (talvez para não espantar os argentinos...): Refinor.
Quando estava abastecendo, veio até a minha moto uma argentina muito simples e humilde, de nome Adriana. Perguntou de onde vínhamos e ficou encantada ao saber que éramos do Brasil. Entreguei um adesivo do blog para ela que disse que iria escrever. Estou curioso para ver.
Esses contatos com o povo argentino são sempre muito agradáveis. Eles são cordiais, atenciosos, gentis e interessados na viagem.
Saímos do posto em direção a Salta, destino final do trecho. Saída às 17:50hs.
Apesar da distância rodada, estávamos bem. Pouco cansados.
Mas o calor apertou...
A pior coisa que existe em andar de moto é o calor. Trata-se de uma questão de bom senso a utilização das roupas de proteção e elas, por mais dispositivos de refrigeração que tenham, são quentes. Quando o calor aparece, o desgaste aumenta muito e a disposição diminui em proporção inversa.
A temperatura subiu para trinta e cinco graus e meio. Seis da tarde. Variação térmica de mais de trinta graus, desde o início da viagem. Não é mole, não! Nery, meu comandante, temos que ficar de olho nisso, na Route 66!!
Na saída de Jujuy, há um trecho de uns trinta km até a entrada do aeroporto, em pista dupla. Aí tudo bem, porque a gente anda livremente e espanta um pouco o calor. Depois a pista ficou simples. A velocidade diminuiu e o sofrimento aumentou, pela falta de refrigeração.
E foi diminuindo, diminuindo, diminuindo... Até pararmos, atrás de um caminhão, na cidade de General Güemes, onde havia um cruzamento de uma avenida com a pista, sinalizado por semáforo. O semáforo mais lento e preguiçoso que já vi. Demoramos uns dez minutos, com anda e para, para atravessarmos o tal cruzamento.
Um pouco mais de pista simples e, cerca de uns quarenta km de Salta, pegamos novamente pista dupla. Aí, mesmo mais cansados, foi mais tranqüilo.
A chegada em Salta – quinhentos mil habitantes, capital da província de mesmo nome – ocorreu em meio ao tráfego pesado de veículos que uma cidade de tal porte normalmente tem. Mesmo assim, foi tudo bem até a entrada do hotel.
Chegamos às 19:40hs. Temperatura de 30° Celsius. Exatos 582 km rodados – pouco menos dos seiscentos estimados. Aí fomos estacionar as motos e a camionete na garagem do hotel. Garagem minúscula que exigiu a realização de incontáveis manobras e que, pelo cansaço e pelo stress da viagem, acabou por gerar uma discussão compatível com a temperatura ambiente entre eu, o Zé e o Otávio.
Uns argentinos chegaram depois e também ficaram irritados com o estacionamento ridiculamente pequeno do hotel. Um deles passou com o veículo por cima de um saco de lixo. Achou que tinha batido, desceu e muito bravo passou a chutar os sacos, com uma potência de dar inveja ao Messi.
Finalmente, uma hora depois – isso mesmo, uma hora de procedimentos de estacionar, descer bagagem e subir com as coisas – nos instalamos. O hotel – Portal de Salta na Calle Alvarado nº 341 – é bonitinho e confortável (exceção da garagem...). É todo trabalhado em madeira e perto do centro – a parte interessante da cidade. Não sei o preço agora, porque foi o Otávio quem fez a reserva. Acho que não é dos mais caros. Convém verificar na Internet.

Salta, “La Linda”
Instalados, banho tomado, saímos para jantar. Num restaurante muito bom – e há muitos deles por aqui – chamado “O Convento”. Fica a umas três quadras do hotel. O nome se deve à proximidade do convento e da Igreja de San Francisco, um prédio vermelho, de estilo espanhol, muito bonito. Eu adorei; a Ju não. Achou um pouco extravagante.
Sobre o estilo espanhol, este é o da cidade, a segunda mais antiga da Argentina – a primeira, se eu não me engano, é Tucumán; tenho certeza que não é Buenos Aires.
Salta tem mais de quatrocentos anos. Estilo predominante, mas não único, porque há alguns prédios de arquitetura francesa por aqui, também bem bonitos e que fazem uma mescla interessante.
A cidade tem o apelido de “La Linda”. Apelido totalmente justo. Porque a cidade é linda mesmo. Linda e agradável, totalmente arborizada, rodeada de montanhas, cheia de gente na rua, em pleno dia da semana, enchendo as calles, os bares, o comércio e as livrarias.
A Plaza Central é do tipo das espanholas. Nela, está localizada a catedral, um prédio muito bonito, pintado de cor-de-rosa. Em torno da Plaza há museus, hotéis, cafés, bares, restaurantes e um teatro, onde se apresenta a orquestra sinfônica e o balé da cidade.
Plazas na cidade é o que não falta. Uma atrás da outra, em todos os lugares que fomos. E todas cheias de gente. O salteño tem orgulho de dizer que a cidade é assim alegre porque não há problema de violência. Diferente da capital... É o que todos dizem por aqui. Que Buenos Aires hoy es muy peligrosa.
Fizemos um tour pela cidade, com um ônibus aberto. Quarenta e cinco pesos por pessoa. Mais ou menos vinte e cinco reais, arredondando para cima. Passeio com ótima relação custo/qualidade. Vimos todos os pontos de interesse e o motorista – Artur – deu-nos todas as explicações necessárias, detalhadamente, em cada ponto de parada. Nem precisava, porque no ônibus roda um vídeo com narração clara em espanhol e inglês a respeito de cada local visitado.
Na parada Paseo dos Poetas (belo nome...) há um local particularmente interessante: o Pateo de Las Empanadas.
As empanadas salteñas são famosas na Argentina. São típicas da região. Em todo bar ou restaurante há empanadas. Deliciosas, de carne, frango ou queijo.
O tal pateo é um local que concentra umas dez ou doze barraquinhas, do tipo de um mercado, que só fazem empanadas ou tamales (uma espécie de pamonha salgada, com carne). Há até um concurso anual entre as barraquinhas, para se eleger qual faz a melhor empanada.
Escolhemos a nº 3, por indicação do motorista. Depois de provar uma, deliciosa, contei para a senhora que preparava as empanadas sobre a indicação. Ela não pareceu surpresa e só disse algo como “claro, yo soy la campeã do concurso deste año”...
Compramos uma dúzia e meia de empanadas, por trinta pesos. Quinze reais. Menos de um real por unidade. Baratinho e delicioso.
Dentre os locais que vimos, um merece particular referência: é a estação de onde parte o Tren de Las Nubes. Trata-se de um passeio turístico que é feito em ferrovia de mais de quatro mil km de altitude, passando por diversos viadutos inacreditáveis. Só que no período das chuvas, o passeio é interrompido, uma vez que o solo fica muito fofo e os viadutos podem afundar, se o trem passar...
Vou voltar aqui para fazer o passeio. De preferência com meus filhos. E quero voltar a Salta porque das inúmeras cidades argentinas que já conheço, foi a que mais gostei. Ouso dizer que gostei daqui mais do que de Buenos Aires.
Há muito mais para dizer/escrever. Mas não direi, porque cansa. E assim acabarei por espantar os dois leitores.
Só mais duazinhas coisas.
A primeira: vimos uma exposição no centro cultural da cidade, ao lado da praça. É um trabalho de uma artista plástica local, com crianças. Ela tomou o livro de perguntas irrespondíveis do Pablo Neruda e apresentou tais perguntas sem respostas para diversas crianças. Os “chicos” responderam e fizeram pinturas, ilustrando as respostas. Uma mais encantadora que a outra. Separei uma para vocês: “O que as tartarugas fazem quando estão tristes?” A resposta, óbvia: “Vão ao psicotartaruguista falar dos seus problemas!!!” Vejam a foto da pintura encantadora feita pela gênia da resposta. Nem preciso dizer que eu e a Ju compramos o livro para a nossa respondedora de perguntas, a Analulu.
A final: é curioso, mas voltar para a Argentina sempre me dá a sensação de voltar para casa. Não tenho dúvidas que aqui é o hogar na América do Sul que me sinto mais à vontade, depois do Brasil. Só sinto o mesmo em Portugal. Aliás, como são legais a Argentina e Portugal!!!
Como sempre, fotos com a Ju, assim que eu liberar o computador para ela.
Amanhã tem mais estrada. Esta provavelmente vai pegar. Ou seiscentos, ou oitocentos km pelo Chaco – que possivelmente estará fervendo, ao contrário da temperatura amena da vinda. Iremos até Presidência Roque Saenz Peña ou, se agüentarmos, até Corrientes.
Abraços e beijos a todos. Toni.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

BOLÍVIA - CONTINUACION






Janeiro de 2011. Ainda na Bolívia. Não sei a data, porque perdi a noção do tempo totalmente.
Como já escrevi no post anterior, o terceiro dia na Bolívia foi o do passeio no Salar de Uyuni.
O Salar de Uyuni é um depósito de sal – um deserto de sal – situado no Altiplano Boliviano a cerca de quatro mil e cem metros de altitude, de 12.000 km2 (isso mesmo, doze mil quilômetros quadrados) de área. Nas bordas (“orillas”, como os bolivianos denominam), a profundidade da camada de sal é de quatro metros. Na parte mais central, a camada de sal tem cerca de cem metros de profundidade – já houve prospecção que encontrou a camada a duzentos metros abaixo da superfície.
Não há qualquer vida no salar, a não ser a dos bolivianos que trabalham nele e dos turistas que o visitam – em número cada vez maior, a cada ano.
O Salar de Uyuni é o maior do mundo. Supõe-se que seja também a maior reserva de lítio do mundo – o petróleo do futuro, uma vez que as baterias são feitas do referido mineral.
Enquanto a Bolívia não consegue processar comercialmente o lítio encontrado no salar, a exploração econômica da riqueza é limitada à produção de sal de cozinha, à fabricação de blocos para construção e ao turismo.
É aqui que nós entramos. No turismo. O passeio no salar é uma das coisas mais belas que já fiz em minha vida – não obstante todo o sacrifício da viagem, desde San Pedro de Atacama. É simplesmente inacreditável a beleza do local. Foram cerca de cem quilômetros rodando pelo salar. A espantosa brancura de todo o entorno nunca foi tediosa.
O salar é inteiramente formado por hexágonos – supõe-se que tal se dá por conta da oxigenação subterrânea; acho que é isso. É impressionante a formação.
O salar é bem plano. Nosso motorista, a cem por hora, soltava as mãos do volante e dizia: “chofeur automático!”
Agora em janeiro, chove. E o salar fica mais encantador ainda. É que se forma uma espécie de espelho d’água, com cerca de cinco centímetros de profundidade, na superfície do salar. Um espelho que, como todo espelho, reflete tudo o que está na superfície. A paisagem – inclusive os observadores – fica inteiramente duplicada. O céu verdadeiramente se reproduz na terra.
Pois foi neste cenário de sonho que vimos o nascer do sol – saímos do hotel por volta de cinco da manhã justamente para isso.
Havia chovido barbaridade na noite anterior. O telhado do hotel de sal, fixado por pedras, tremia por causa do vento. Até nos recomendaram que fechássemos todas as portas, para evitar que o telhado levantasse voo. Fiquei um tanto apreensivo com a possibilidade de a chuva estragar o passeio.
O que eu não sabia é que a chuva, ao invés de estragar, estava construindo o cenário do mais belo nascer do sol que tive oportunidade de presenciar em minha vida. E digo sem medo de errar: nunca mais verei outro nascer do sol como esse da Bolívia.
O sol nasceu para cima e para baixo. Em duplicata. Cada raio refletido no chão branco do salar, revestido pela água da chuva da noite anterior.
Todos ficaram absolutamente sem palavras. E emocionados.
As fotos – que a Ju postará (e já postou no Facebook dela) apenas dão uma idéia de tudo aquilo. É preciso vivenciar esse momento para perceber tamanha beleza. E passar pela Puna...
Depois que amanheceu, dirigimo-nos a uma ilha no centro do salar. A Incahuasi que significa casa do Inca. Uma ilha cheia de cactos centenários (cactos de oito metros de altura – como eles crescem um centímetro por ano, cada metro equivale a cem anos de vida). Um verdadeiro mirante natural do salar.
Dali, seguimos para uma vila já fora do perímetro do salar. Vimos o processamento do sal para comercialização. Atividade familiar, mas com utilização lamentável de trabalho infantil. Duas menininhas, de poucos anos de idade, providenciavam o enchimento e o fechamento dos saquinhos de sal. As mãozinhas estavam todas marcadas. Foi de cortar o coração.
Isso é a Bolívia. Indescritível beleza natural e um povo miserável de dar dó.
Miserável, mas orgulhoso. Sobre isso escrevo posteriormente.
Bom, almoçamos no local e compramos artesanias. Dali, seguimos para a cidade de Uyuni, onde fizemos a baldeação. Nossos guias terminavam ali o trabalho e outros nos levariam de volta até a fronteira entre a Bolívia e o Chile e de lá retornariam com outros turistas, pelo mesmo circuito.
Uyuni é bonitinha e bem organizada, para os padrões bolivianos. Tem um centrinho arrumado, com diversos bares, restaurantes e hospedarias. Tomamos um lanche na praça, vendo o movimento de pés-sujos e cholas.
Nas vizinhanças, há um cemitério de trens – trens antigos, do começo do século vinte, que foram abandonados no local aos montes. Parece que, como os elefantes no fim da vida, aqueles monstrengos deformados se dirigiram até o local para morrerem, envergonhados, longe dos olhos dos seus usuários.
Compondo o cenário com um toque macabro, há sacos plásticos cheios de lixo, espalhados por todo o local. Segundo os guias, o vento leva o lixo e não há nada que se possa fazer porque, ao que parece, não há coleta – ou há, mas o lixo é despejado em algum local a céu aberto e aí o vento espalha tudo e ninguém se importa...
Por volta das seis da tarde, saímos. O nosso motorista, bem novinho, disse que gostava muito de limpeza. Comprovava isso o improvável tênis imaculadamente branco que calçava.
Rodamos por muitas horas por estradas de cascalho – as principais – e por verdadeiras trilhas de areia e pedras, com riachos pelo meio. Tivemos até que parar para os guias retirarem cerca de um quilo de terra acumulada nos filtros de gasolina e de ar da Toyota que nos levava. Enquanto esperava na noite fria – cerca de cinco graus –, aproveitei para olhar o céu coalhado de estrelas, sem a interferência de nenhuma luz, porque luz não há nas redondezas.
Por volta de dez horas, chegamos ao ponto de pouso, situado numa vilinha chamada Vilamar (porque, não sei, uma vez que o mar está do outro lado da cordilheira). Para eles hotel. Para nós um alojamento, com seis camas no mesmo quarto e com um piso rangedor. O banheiro, aquela lástima. Não deu para tomar banho.
Janta – boa – e cama, por algumas horas, porque partimos novamente de madrugada, de volta para o Chile.
No retorno, houve parada para “baño” (uso do banheiro), no local onde há a piscina de água termal.
Precisei ir ao banheiro. Como escrevi no post anterior, aquele outro banheiro que a descarga era na base do garrafão de cinco litros, não foi o pior. Isso porque nos esperava este da parada. Não vou descrevê-lo. A Ju postará uma foto quase escatológica das explicações desenhadas para os usuários.
O resto não tem muito interesse. Fronteira, guardas pedindo quinze pesos bolivianos para deixarmos o país – parece que há uma taxa, mas depois do responsável pela agência conversar com os guardas, nada nos foi cobrado. O Otávio já tinha feito o pagamento e, ao que parece, foi reembolsado. A coisa não ficou muito clara para mim.
Chegamos ao Chile, por volta do meio-dia. Mais uma hora de alfândega, outra para pegarmos as motos e abastecê-las (chegar ao posto foi um verdadeiro martírio: ao hotel, foi outro).
Acabamos nem saindo. O Zé teve mais coragem e foi ao Vale da Lua. A Amanda e o Pedro, meus sobrinhos, viram ainda uma apresentação astronômica, com observação de estrelas por meio de cerca de dez telescópios de diferentes potências. O Chico Cortez, meu amigo, recomendou tais passeios. Como ele nunca indica “furada”, devem ser ótimos. Fica para a próxima vez – com a Analulu, minha pequena.
Nessa noite, aperitivamos uns vinhos chilenos brancos e ganhamos, ainda, uma bebida de cortesia da simpática gerente do hotel: um pisco sauer. Foi um descanso agradável e necessário, porque o trecho do dia seguinte prometia ser bravo: tocada de seiscentos km até Salta, com direito a dois procedimentos alfandegários e variação extrema de altitude e temperatura.
Que eu conto no próximo post. Já de Salta. Só digo que sobrevivemos e que a viagem foi mais tranqüila e mais bela do que o esperado.
Abraços e beijos a vocês quatro que ainda têm paciência para ler.
Toni.
Os tradicionais P.S.s:
Um: só não respondi diretamente a cada um que deixou msgs, porque não consegui sequer ver como está o blog.
Dois: Nery, meu capitão. A Ju me contou que você está gostando das descrições e que espera que eu as faça na Route 66. Fico muito honrado e já me sinto escalado.
Três: não sabia que o cacto fornece uma madeira meio furada que é usada na fabricação de móveis, portas e vigamento. Muito interessante. Quanta coisa a gente não sabe...

Post da Ju






Queridos amigos! O que me resta é escrever algumas poucas palavras de meu amigo inseparável iPhone, pois concorrer com a diposição de AM e Otávio para escrever no blog é impossível... Então o que me resta dizer do que já foi e muito bem dito pelos dois?
Sim, fui eu quem inventou essa história de Salar Uyuni. Vi as fotos do cemitério de trens um tempo atrás no orkut de uma amiga de uma amiga e junto as famosas fotos engraçadinhas que todos fazem no salar. Fiquei apaixonada pelo lugar e absolutamente encanada em ir. Nao sabia nem onde era muito menos do que envolvia. Na primeira viagem de moto, ao Ushuaia, perguntei para o Otavio se nao dava para ir, ai Ele me disse que era para a viagem do Atacama mais razoável e não para a viagem do Ushuaia!!! Para vcs terem noçao do tanto que eu estava a par do mapa!!! Rsrsrs!
Conforme o tempo passou, eu fui cada vez mais esbarrando com o salar. O Fe Milane foi de mochila, meu primo GUI também... E eu com o dito cujo na cabeça! Qdo começamos a ver a viagem para o Atacama, senti que era minha chance! De novo, pelo que vimos era inviável para nossas motos essa aventura... Estradas no meio do deserto, marcação deficiênte ou ausênte, colocar as motos na Bolívia, combustível e por ai ia... Otavio até me consolou dizendo que veriamos um salarzinho perto de São Pedro de Atacama... mas nao seria MEU UYUNI!!!!
Sei la como, nem consigo me lembrar onde, talvez conversando com o Felipe, descobri que existiam excursões de 4 dias justamente saindo de San Pedro! Era agora ou nunca! Quando eu ia desenrolar uma viagem onde eu conseguisse encaixar a Bolivia de novo!?
Fuça que fuça, achei a Atacama Mística, que depois de vários desencontros de emails (que depois descobri bem porque ocorreram- povadeira (poeira) pára os pcs que são enviados constantemente para a limpeza) consegui montar e agendar a viagem.
Não vou nem perder tempo em descrever tudo de novo o que vcs ja leram aqui. Só vou falar que a dor de cabeça que eu tive foi do tipo Matrix - o Neo tava dentro da minha cabeça que a qualquer momento seria partida ao meio com direito a uma luz brilhante de dentro para fora (vide cena do filme). Em certo momentos temi que AM fosse pedir o divórcio. E que o Otavio fosse sair gritando virado do avesso pelado tossindo correndo no deserto, isso tudo claro, após me matar. Mas sobrevivemos. Todos. Sobrevivemos para contemplar o espetáculo mais fabuloso que tive o prazer de ver: o nascer do sol refletido no salar. Salar que estava molhado pelas chuvas do dia anterior! Que segundo ouvimos estava seco antes... Quanta sorte. E ao descer no salar, com o sol começando a aparecer do meu lado direito, eu não sabia mais para onde eu olhava. A imensidão branca que nos cercava, o sol surgindo ou quando me deparei com a parte molhada e vi que os jeeps parados a nossa frente, não eram mais dois, mas sim quatro, por que refletidos como espelhos, formavam uma imagem que jamais eu irei esquecer. O sol, as montanhas, as pessoas, que como crianças brincavam com suas imagens refletidas, tudo, tudo isso me fez chorar. E só então entendi porque tive que buscar meu Salar...
Juliana.
enviado do meu iphone
Quando entramos

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

BOLÍVIA

Nove de janeiro de 2011. Do Chile para a Bolívia. Do que é quase um país de primeiro mundo para o terceiro mundo em toda a sua expressão.
Estávamos muito cansados da viagem do dia anterior. E tivemos que sair logo cedo do hotel. Preparar tudo, tomar café, levar as motos e a camionete para o estacionamento da agência de turismo. Tudo para estarmos às oito e meia novamente na alfândega. Pé no saco de chuteira com cravos altos. Mas fazer o quê. Como dizia o filósofo Vicente Matheus, “quem sai na chuva é para se queimar”.
Para encurtar, fizemos a alfândega e subimos de volta aquela descida – agora subida – da chegada de San Pedro. Depois de cinqüenta km, mais ou menos, perto dos vulcões – vide o post anterior – há uma saída para a Bolívia (que eu não tinha visto). Ali pegamos uma estrada de terra e fomos até a fronteira do Chile com a Bolívia.
Feitos os trâmites, pegamos as Toyotas que nos esperavam para o passeio contratado: um tour de três noites e quatro dias por aquilo que a Bolívia tem de mais maravilhoso: as belezas do altiplano. Aventura pura. Gostaria muito de fazer de moto, mas sei das minhas enormes limitações como piloto. Simplesmente não dá.
Foi o passeio mais maravilhoso e mais desgastante da minha vida.
Conversamos a respeito e concluímos: para indicar o passeio para algum amigo é necessário muito cuidado. É preciso explicar bem o que se passará – e quase que faltamente passará.
O Edgardo – o contato da agência Atacama Mística com o qual a Ju contratou o passeio – explicou tudo. Se fosse no Brasil, ele teria agido em total conformidade com o Código de Defesa do Consumidor. No briefing que tivemos na véspera do embarque ele explicitamente falou que o passeio seria um dos mais radicais e que todos ficariam muito cansados. Também falou da altitude e dos problemas que poderiam decorrer dela. Explicou especificamente que o mal da altitude – a Puna – não escolhia sexo, idade, forma física etc. Dava em uns – com maior ou menor intensidade – e não em outros. E que devíamos nos preparar – o que significava não beber, nem comer carne vermelha ou leite, dentre outras restrições. Mas não adiantou, como se verá mais a frente.
O passeio começou com uma série de lagunas, no meio das montanhas, com o deserto de pedra ao redor. Lagunas coloridas, cheias de flamingos e bórax (elemento químico esbranquiçado, usado para a fabricação de vidros, se eu não me engano). Na sequência, uma piscina natural de águas calientes – 45° segundo os guias; eu achei que estava mais para uns trinta e oito –, mais montanhas, altitude, vulcões, formações rochosas, neve (é, chegou até a nevar!). Tudo em trilhas ora de areia, ora cheias de rochas que eram contornadas habilidosamente pelos motoristas – chofeurs aqui, vai saber porquê – dos jipões. Tudo a mais de quatro mil e quinhentos metros de altitude. O ponto culminante foi cinco mil e cem metros!
Depois de um dia inteiro de passeios por paisagens literalmente alucionantes – eu nem me lembro mais de tudo o que vimos no primeiro dia –, paramos no hotel. Hotel, não, alojamento. Quartos com camas coletivas – cinco para umas trinta pessoas de todo lugar do mundo – e com duas privadas e um chuveiro frio para todos.
Aí a Puna pegou. Pegou eu e o Otávio, que já estava meio adoentado, apanhando de uma gripe com tosse que não largou do pé dele nem um minuto.
A Puna é o mal da altitude. Eu tive uma dor de cabeça que fazia décadas que não sentia.
Na adolescência, costumava ter umas enxaquecas que vinham do nada e quase me arrebentavam a cabeça. A dor de cabeça da Puna foi pior. Queria morrer.
Tomei um chá feito pelo senhor responsável pelo alojamento. Também mandei para dentro duas nelsaldinas. Passadas algumas horas a coisa melhorou, mas eu fiquei deitado quietinho bem umas quatro horas. O Otávio não. Ele deitou e só levantou na manhã seguinte.
Por causa da dor de cabeça alucinante, não fui ver a Laguna Colorada – em cores vermelhas e que tem a maior concentração de flamingos da região. Milhares deles ficam ali ciscando. Tudo rodeado das enormes montanhas dos Andes. Quem viu de perto, amou. Eu acabei vendo de passagem, no dia seguinte e achei mesmo fantástico.
No segundo dia, saímos logo cedo. Mais ou menos sete e meia da manhã. Temperatura bem amena: uns oito ou dez graus. Amena? Explico: de noite, a temperatura cai para menos quinze. É isso mesmo: menos quinze graus abaixo de zero. No alojamento, ela é de uns dez graus, mas os cobertores eram bem quentinhos e a cama, juro, foi a melhor da viagem. Dormi bem umas catorze horas – contando as da recuperação da Puna.
Passamos por desertos de todos os tipos: de pedras, areia, com e sem vegetação. Paramos em diversos locais e um dos mais interessantes era o das formações rochosas. Há uma árvore de pedra de uns sete metros de altura. Tudo surreal.
O segundo alojamento foi um hotel de sal, já beirando o Salar. De sal porque todo feito de tijolos de sal. As camas, as mesas, as paredes, o chão, tudo de sal. E tinha banho quente, ao custo de dez bolivianos, ou mil pesos chilenos. Ou um dólar e meio, mais ou menos. Fica uma menina chola na porta controlando o tempo que é de cinco minutos.
Interessante é a descarga. Há uma caixa de água na porta dos dois banheiros e umas garrafas de cinco litros de água. Quem usa, enche a garrafa e joga no vaso. Essa é a descarga. Mas não foi a pior. Longe disso. Abaixo há mais.
O terceiro dia foi o do passeio no Salar de Uyumi. Que eu conto com mais vagar no próximo post. Fotos com a Ju. Agora vou dormir, porque amanhã cedinho é nova estrada.
Abraço a todos.
P.S. Alexandre: essa é a dica. Faça o passeio, mas acompanhado de um guia, senão a barra pesa.
Abreijos. Toni.

SÉTIMO TRECHO - PURMAMARCA - SAN PEDRO DE ATACAMA







Oito de janeiro de 2011. Atrasado, evidentemente, porque hoje já é 12 de janeiro de 2011. Depois de Argentina total, agora é Chile pra valer!
O sétimo trecho era para ser tranqüilo. Um passeio. Foi um passeio lindo, maravilhoso. Mas não foi tranqüilo. Foi exaustivo.
Saímos de Purmamarca às 9:10h. Temperatura 19° Celsius à sombra. Temperatura agradável, mas vai esfriar, mais à frente.
Logo pegamos a estrada. Começou a subida. Subida espetacular! No meio dos Andes. Cheia de montanhas, uma mais linda do que a outra. Aliás, em Purmamarca, há uma montanha toda colorida que ficava bem atrás do nosso hotel. O Cierro de Sete Colores. Pela manhã, com o sol batendo, apareceram todas as sete cores e mais algumas. Tons de verde, vermelho, amarelo. Realmente muito bonito.
Na subida, foi esfriando. A temperatura baixou para 13° Celsius na primeira parada: o marco de 4.170 metros acima do nível do mar. Paramos para as fotos de registro e para esticar as pernas. 34 km rodados. Dez da manhã. Ou seja, cinqüenta minutos para só um pouquinho de estrada.
É que a estrada tinha muuuiiiiitaaaas curvas em aclive. Curvas para todos os lados. Curvas que se faz em primeira marcha. Curvas para subir de 3000 para mais de 4000 metros. Curvas do tipo da estrada do Paso do Cristo Redentor, entre Santiago e Mendoza.
Votamos. Ganhou o Cristo em número de curvas, mas eu acho que por pouco, porque as daqui eram muitas mesmo.
Continuamos. As curvas diminuíram. As montanhas não. E o deserto começou a dar as caras. Muito pedregoso e com uma vegetação típica rasteira. Uns tufos verdes.
Como a Ju observou, não dá para imaginar que o deserto é um lugar tão rico de paisagens. Chega a ser emocionante. Perdemos o fôlego duas vezes. Pela altitude e pela beleza do entorno.
A segunda parada foi em um salar, depois de 66 km rodados. Onze e trinta da manhã. A temperatura subiu para 17° Celsius.
Eu nada sabia sobre salares até uns três anos atrás. Foi a Ju que me falou a respeito, ao comentar sobre o Salar de Uyuni. Não imaginava que havia desertos de sal nos Andes – justamente o que são os salares.
Tudo aqui, há milhares de anos, foi oceano. Depois, os Andes subiram e represaram a água do mar que acabou por secar. Secou a água, mas não o sal.
Isso são os salares. Enormes áreas cobertas de sal. Brancura para todo lado. Impressionante.
Bom, neste salarzinho do caminho entre a Argentina e o Chile a gente já babou. Mas não era nada perto de Uyuni. Sobre o qual, depois eu conto.
Fizemos fotos, evidentemente. A Ju depois faz a postagem. Ou não. Ela está cuidando das imagens. E como são tantas, vai depender da boa escolha dela. E da lerdeza/esperteza da Internet local.
Prossigo.
A terceira parada foi em Susques, uma cidadezinha no alto da montanha – 3.700 mts. –, depois de 135 km rodados, às 11:50hs. Temperatura: 21° Celsius. Ainda Argentina.
Na nova subida da montanha, mais lindas paisagens dos Andes. Difícil até de explicar. E apareceram as primeiras lhamas na pista.
Paramos em um hotel/restaurante. Já com medo da altitude pegar. E não pegou. Mas, mais para frente, ela vai pegar...
Almuerzo, com direito à conversa com os responsáveis pelo hotel – um argentino e uma uruguaia – Maria, que falava perfeitamente o português. Eles passaram a cuidar do hotel faz uns três meses. Antes moravam... em São Paulo! Eita mundo globalizado!
Saída às 13:10hs. E a próxima parada foi no Paso de Jama – nome da fronteira argentina. Duzentos e quarenta e sete km rodados desde Purmamarca.
A aduana é sempre um saco. E a aduana argentina não é exceção. Ao contrário, é afirmação da regra. Gastamos mais ou menos uma hora para preenchermos um monte de formulários, pegarmos outro monte de carimbos, papéis, devolvermos papéis para o mesmo guardinha com cara de otoridade que nos entregou a papelada.
É sempre importante o cuidado com a papelada. Qualquer papel não preenchido, qualquer carimbo errado, pode atrapalhar muito a viagem. Então, preste atenção, que vale a pena!
Na alfândega, um monte de gente. Altitude local de mais de quatro mil metros. Uma garota desmaiou, justamente por causa da altitude. Eu me senti um pouco cansado, um pouco estranho. A Amanda – minha sobrinha – reclamou de dor de cabeça. Nada muito forte. A gente se sente esquisito. Não dá para explicar. Mas mais para frente vai dar...
Tudo resolvido, retornamos à estrada. Já no Chile. O entorno foi ficando cada vez com mais cara de deserto. E começou a esfriar.
Saímos da aduana às 15:20hs. Quinta parada. Na estrada mesmo, para vestirmos os forros, porque esfriou para valer.
Estava novamente 13° Celsius no mostrador da moto. E ventava muito. A sensação térmica era abaixo dos oito graus. Muito frio, como disseram uns motociclistas brasileiros que encontramos no posto próximo à aduana.
Abro parêntesis. Há um posto de gasolina vizinho à aduana. Dava para abastecer sem qualquer dificuldade, o que não fizemos porque trouxemos vinte litros de gasolina num galão que veio na camionete do Zé, meu irmão.
Já havia lido a respeito do tal posto que, ao que consta, é de recente construção. Parece que normalmente há combustível lá sem grandes filas. É importante saber disso, porque dependendo da autonomia da moto, o abastecimento na fronteira é absolutamente necessário. Como já escrevi em post anterior, na região de Purmamarca, no período de férias, campeia o desabastecimento. Ficamos em Tilcara mais de uma hora na fila para encher os tanques das motos. Motos com autonomia menor podem ter dificuldades sérias.
Ainda dentro do parêntesis, no Chile não se pode transportar combustível. Mas como a aduana chilena é só lá embaixo – em San Pedro de Atacama, cento e sessenta km de distância da aduana argentina –, caso haja necessidade, o motociclista pode levar mais alguns litros de reserva em galões (alguns levam até em garrafas de Coca-cola...) e reencher o tanque, antes de passar pelos procedimentos aduaneiros. Antes, senão a gasolina e o galão são apreendidos.
Voltando à Ruta, depois de cruzarmos muito deserto com montanhas lindas e coloridas – uma diferente da outra – na altitude, começamos a descer para San Pedro de Atacama. Descida intermitente, mais para reta do que para curva, de quarenta quilômetros! Baixamos de mais de quatro mil para três mil e quatrocentos, que é a altitude aproximada de San Pedro.
Nova aduana. Não se esqueçam. Depois da descidona, a gente chega em San Pedro e – acho – pode entrar direto na cidade, sem passar pelo controle de fronteira. Mas quem fizer isso vai ter um monte de problemas – para reentrar na Argentina, por exemplo.
A aduana de San Pedro fica logo à direita, no final do retão em declive pelo qual viemos.
Foi menos problemático do que parecia. Controle de fronteira e de bagagem. Coisa de meia hora.
Dica importantíssima: há um controle muito severo no Chile – em qualquer lugar – sobre a entrada de alimentos in natura. Não é possível trazer para o Chile uma simples maçã. Se você esquecer a maçã que comprou no posto na Argentina dentro da mochila e o controle sanitário pegar – e ele vai pegar –, prepare-se para pagar uma multa pesada! Então, não se esqueça: nada de frutas ou de qualquer outra coisa de comer que não seja industrializada.
Em San Pedro, a temperatura aumentou para 31° Celsius. É complicado lidar com variação de temperatura desse porte: de 13 para 31. Então, vindo de moto, esteja preparado.
San Pedro é uma titica de tamanho – 4.500 habitantes; mais uns mil e quinhentos turistas –, mas é super complicado andar na cidade, porque as ruas não batem. Se você errar uma, vai dar uma volta imensa. E outra coisa, o posto de gasolina – estacion de abastecimiento – é bem difícil de chegar. Pergunte bem. Ah! O posto aceita cartão de crédito, o que não está acontecendo, em geral, na Argentina.
Por causa dessa dificuldade, rodamos um bocado até encontrarmos o hotel. Acabamos por localizá-lo às sete da noite – noite é modo de dizer, porque o sol ainda estava firme no céu e caliente na terra. A temperatura, forte, era de 31° Celsius.
Rodamos um total de 413 km. Achei que seria um passeio, mas como escrevi acima não foi. Foi muito desgastante, pelos trâmites aduaneiros, pela diferença de temperatura, pela altitude e pela paisagem que faz parar mais do que era aceitável. Assim, quando vier para cá, principalmente saindo de mais longe (Salta, Jujuy) tenha em conta essas variáveis para programar a sua viagem. Não deve ser nada agradável passar pelo topo da cordilheira já pela noite, quando a temperatura cai muito.
Sobre a temperatura, se de dia em San Pedro ela gira pela casa dos trinta, à noite baixa para uns treze. É a velha história de que o deserto é quente de dia e frio à noite. Mas nada assustador.
Isso no verão, porque o inverno é bravo à noite por aqui. À noite baixa para menos sete. De dia é ameno: vinte graus, mesmo no inverno.
A eletricidade em San Pedro varia muito. Como aqui é deserto e tudo é limitado – inclusive a eletricidade – e à noite todos ligam as luzes, pode haver muita variação. Como está acontecendo exatamente agora no hotel. A internet se foi e a luz está “flaquejando”. Um pisca-pisca.
A cidade em si parece um reduto “hippie” no Século Vinte e Um. Muitos mochileiros – quase todos de havaianas e apelidados, por nós, de pés-sujos – e um monte de barzinhos e restaurantes com cara de Vila Madalena. Mas é bonitinho. Tem uma rua “peatonal” que concentra os bares, restaurantes e tiendas de artesanias e produtos de prata e cobre. Na paralela, há uma bela praça. E em todos os lados, há agências de turismo, vendendo passeios locais e para a Bolívia.
Aqui é mais caro do que na Argentina. Mas não muito mais.
Jantamos em um bom restaurante (“Delícias de Carmen”) que aceitava dólares, por uma boa taxa de câmbio. Comemos bem – comida bem feita e atendimento simpático – e tudo ficou, mais ou menos, dez dólares por pessoa. Dezoito reais. Nada mal para um jantar em uma cidade turística que todos dizem que é cara.
Acabou de acabar a energia elétrica. Estou usando a bateria do computador. Todos os insetos da região – uns micropernilongos – foram atraídos pela luz da tela.
A luz sempre acaba aqui. E a água também. Problemas de se ter uma cidade no meio do deserto. Cidade de nove mil anos, mais ou menos. Como disse o Otávio, com todo esse tempo e não aprendeu ainda a lidar com os problemas básicos. Crítica devida ao cansaço.
Ah! O hotel! Os hotéis razoáveis aqui são caros. Cerca de duzentos dólares. Há hostais, mais baratos, mas sem as mínimas condições. Principalmente, porque sofrem com a falta de água, problema do qual o nosso hotel não padece.
Fomos muito bem atendidos. O quarto básico é razoável – o nosso estava meio caído, mas o do Otávio e da Inha pareceu mais bem cuidado e muito mais charmoso –, mas o superior – no qual ficamos no segundo dia – é show de bola. Tem até varanda com vista para os dois vulcões que vigiam permanentemente a cidade. O Licancabur e o vizinho Juriques que tem o topo cortado – a palavra em língua indígena (não sei qual; perdão pela ignorância) significa exatamente isso: com a cabeça cortada.
O hotel se chama Tulor. O endereço é Rua Domingo Atienza 523. Telefones 56 55 851027 e 851063. Tem tudo na Internet, por onde fizemos a reserva. Indicação preciosa – mais uma – do Alexandre, nosso anjo da guarda. Salve, meu chapa, pelas dicas sempre excelentes. No próximo post, ousarei dar uma dica para você.
Ainda bem cansados, saímos no dia seguinte, oito da manhã, em uma excursão para a Bolívia por três noites, passando pelo Salar de Uyuni. A parte hard da viagem. Que eu conto no próximo post. Atenção, nossos três ou quatro acompanhantes: não percam!
Como já dito/escrito acima, fotos com a Ju, assim que eu liberar o computador para ela. Na sequência, vou escrever a aventura na Bolívia.
Finalizo com mensagens.
A primeira é para o Alexandre: realmente, os Andes nesta região são muito mais desbundantes e emocionantes do que na Patagônia ou na região de Mendoza. Você tem toda razão.
Outro recado. Nery, meu capitão: você tem que vir para cá! Quem sabe depois da Route 66, programamos algo!
Abraço a todos. Agora, vou começar a escrever o outro post. Sobre a Bolívia. Barra pesada, mas maravilhoso. Dica para quem quiser se arriscar. Como nós.
Abreijos. Toni.

sábado, 8 de janeiro de 2011

SEXTO TRECHO - DE JOAQUIM V. (V?) GONZALEZ A PURMAMARCA, COM PASSADINHA EM TILCARA E HUMAUACA

Sete de janeiro de 2011. Argentina total.
Sexto trecho curto. 313 km com paisagem espetacular. Verdadeiro passeio. De Joaquim V. (V.?) Gonzáles a Purmamarca.
Café às sete e meia com as “medialunas” tradicionais. Entre pagar a conta – em “efectivo” –, arrumar as coisas, fotos etc., a saída se deu às 8:20hs. Temperatura 22,5°Celsius.
Saída fácil da cidadezinha e logo estávamos na estrada. Os primeiros cinqüenta km estavam muito ruins, com diversos buracos (aqui “poços”) e com o asfalto deformado. Mas o movimento é pequeno e deu para desviar dos maiores sem problemas.
Os próximos cinqüenta km estavam bons e a paisagem também começou a melhorar. Avistamos, ao longe, as primeiras montanhas.
Rodados cem km, terminou a Ruta 16. Termina na Ruta 9, a pista que vai para Salta. Este trecho a partir de Joaquim V. (V?) Gonzalez a estrada não é mais aquele retão infinito do Chaco – apesar de ser a mesma Ruta 16. Ela faz um grande contorno ( que pode ser visto no mapa) que termina justamente na Ruta 9. Porisso Joaquim nos pareceu um ponto estratégico para a travessia do Chaco.
Na região – os tais cem km – se planta fumo. Ao longo do trecho, vimos enormes plantações e caminhões carregando a folha já colhida.
A Ruta 16 tem um asfalto excelente e duas pistas em cada sentido – separadas apenas por faixa dupla central. O entorno é muito bonito porque as montanhas começam a ficar maiores.
A primeira parada se deu com 177 km rodados, às 10:10hs. Posto de estrada, nas proximidades de General Güelmes. Um lugarzinho chamado Tomé Salito, se eu não me engano – é difícil às vezes entender o que dizem os frentistas.
Atenção: convém abastecer ali. Aliás, daqui para a frente convém abastecer em todo lugar que se encontrar com combustível, porque o desabastecimento – tão corriqueiro para os Argentinos das províncias mais distantes de Buenos Aires – começa.
Tocamos até rodarmos 271 km desde o início – após rodearmos Jujuy, a capital da província para onde nos dirigimos. Um mirante. Mirador de Leon, com vista linda das montanhas e de um vale bárbaro, ao fundo. Provável leito de rio de degelo. Chegamos ao local ao meio-dia, com temperatura extremamente conveniente para viajar de moto, de 23°Celsius.
A chegada em Purmamarca se deu às 13:00hs., com temperatura de 25°Celsius. Exatos trezentos e treze km rodados. Cidade lindíssima, toda de pedra avermelhada, no meio das montanhas coloridas! Ao lado do Cerro de Siete Colores. A paisagem é mais bonita aqui do que a que vi nas proximidades de Mendoza. Muitas cores e vegetação. Muitos cactos, que compõem a paisagem.
Para encerrar, a pousada é show de bola. Um luxo. Terrazas de La Posta é o nome. Otávio, muitíssimo obrigado pela ótima escolha.
Prossegue no próximo post. Fotos com a Ju, assim que eu parar de usar o computador. Abreijos. Toni.
P.S. No sexto dia fomos a Tilcara (onde ficamos uma hora e meia para abastecer – não há combustível daqui até o Chile), cidadezinha de faroeste, e Humauaca, do mesmo estilo de Purmamarca, mas não com o mesmo charme. Mais cento e vinte km rodados de ida e volta. E na volta, às 19:00hs., a temperatura baixou para 19° C, com vento. Agora estamos na Argentina: montanhas, vento, frio, paisagens lindíssimas e desabastecimento... Mas foi por esse conjunto da obra que viemos para cá. Agora terminou mesmo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

QUINTO TRECHO - CORRIENTES - JOAQUIM V. (V?) GONZALES





Seis de janeiro de 2011. Argentina total.
Quinto trecho. Média distância. 600 km. De Corrientes a Joaquim V. (V.?) Gonzales. A famosa travessia do Chaco. O tamanho do calor pode ser verificado pelo nome de duas das cidades pelas quais passamos: Infierno Del Chaco e Rio Muerto. Também tinha Cerro Queimado. Tudo nome de cidade de faroeste, empoeirada e calorenta. E eram mesmo. Para quem não acredita nos nomes, a Ju vai postar uma foto.
A idéia, por causa do calor previsto, era de sairmos de madrugada. Só que o café da manhã do hotel Guarany em Corrientes começava às 6:30hs. Nada de café mais cedo. O grupo optou por tomar o café e rezar um pouco para que o calor não pegasse.
Saímos às 6:50hs. Logo na saída, uma perdidinha. É que estávamos em dúvida se podíamos trafegar pela pista central da avenida que leva à Ruta 16 – a estrada que corta o Chaco. Um amigo do Otávio disse que foi parado pela polícia por trafegar pela faixa central e não pela lateral.
Pois bem, fomos pela lateral, por via das dúvidas, mas na hora de sair para a ponte – a que corta o Rio Paraná, em direção a Resistência (30 km de Corrientes – também é opção de dormir; pior, mas é) – o Otávio virou para um lado e eu e o Zé para o outro. Depois de uma volta mais comprida do que eu esperava, acabei por ver o Otávio entrando na ponte, encontramo-nos e não nos perdemos mais.
Do lado de lá, perto de Resistência, de súbito, o Otávio saiu da pista e foi para a marginal. Ali havia uma placa proibindo circulação de motos. Eles chamam essa marginalzinha de “Coletora”. Andam motos e bicicletas.
Era na tal da coletora que aconteceu do amigo do Otávio ser parado e quase linchado pelos policiais. Encontramos duas dessas. Uma ao lado de Resistência e outra em Presidência Roque Saenz Peña – um lugar que muita gente para nesse caminho. Uma cidade de uns oitenta mil habitantes. Antes não tinha hotel decente por lá. Agora parece que tem um novo, com muitos quartos. O nome, não sei. Assim que descobrir, eu posto.
Essas “coletoras” se explicam pelo tipo de trânsito de motos que há no local. São umas motos pequenas, velhas, muitos ciclomotores, apinhados de gente sem “casco” (o capacete deles). Vi diversas com menores, com três, com pai, mãe e dois filhos. Até nenê de colo eu vi. Esse pessoal realmente não podia trafegar na rodovia porque dava caca. Agora, as nossas grandes maxitrails são para rodar na estrada. E não podem. Consequentemente, temos que nos submeter às tais “coletoras”, senão eles param e multam. Multam, não, pedem “una contribuicion” – que não não estou disposto a dar.
Essa é uma dica importante. Quem vier pela Ruta 16, depois de Corrientes, tome cuidado com os trechos de pista com relação aos quais o tráfego de moto é proibido. Vão para as coletoras e voltem mais à frente.
Bom. A primeira parada foi Presidência Roque Saenz Peña. Cento e oitenta e dois km tocados. Chegamos lá às 9:10hs. 28º Celsius. Boa temperatura. Abastecer, uma aguinha, um Redbull para dar uma força para a atenção e estrada.
A segunda parada foi em Pampa de Los Guanacos. Trezentos e trinta e três km tocados. 11:10hs. Quando deu trezentos km a temperatura estava exatos 30° Celsius. Coincidência.
Ah! Sobre a temperatura, a mais alta que pegamos foi 31º Celsius. Absolutamente confortável. Quase o tempo todo estava 28° E o céu estava encoberto. Em outras palavras, justamente no lugar em que o calor era mais temido – o Chaco Argentino – pegamos a temperatura mais amena da viagem, porque havia chovido ontem em quase toda região. Sorte. Ou muita reza. Murmurar um “Salve Rainha” de vez em quando ajuda!
No posto em Pampa de Los Guanacos, uma coisa curiosa: a moto ficou coberta de abelhas. Movimentei-a, mas elas me acompanharam e ficaram. O jeito foi não mexer com elas e deixá-las rondando.
Só que depois, na estrada, uma delas – que deve ter pegado uma “carona” – foi jogada pelo vento no meu pescoço e me picou. Uma bela ferroada que me incomodou o tempo todo.
Sobre bichos em geral, o Chaco está cheio deles. O tempo todo bandos de passarinho levantavam voo à nossa passagem. Metia a mão na buzina para espantá-los. Deu certo, porque não pegamos nenhum. Também havia na “Ruta” muitas Marias Fedidas. Estouravam o tempo todo em nossos capacetes e vinha aquele cheiro característico.
Muito gado solto ao lado da pista. Bois, carneiros, cabritos, jumentos etc. E carcarás – aqui chamados de caranchos. Demos sorte de não pegarmos nenhum – à exceção da minha abelha no pescoço e de outro inseto não identificado que picou o braço da Ju e fez um caroço. Viemos disputando sobre em quem doía mais.
Além do gado, a paisagem ao redor estava coberta de girassóis. Já secos, prontos para a colheita. Por aqui seguramente o girassol é a cultura campeã.
Por conta dos girassóis, há muitas maquinas agrícolas na pista. Máquinas enormes, que chegam a invadir a pista contrária. Mas o movimento de veículos não é muito grande – apesar de ser maior do que o da Patagônia.
O posto da segunda parada – o de Pampa de Los Guanacos – tinha instalações sanitárias de dar inveja a qualquer boteco de beira de estrada da Amazônia. Ganhou a nota máxima de imundície: classificação três cocôs. Até os mosquitos se recusavam a entrar no banheiro. Mas a gente teve que fazer uso deles...
A terceira parada foi no km 491 às 13:00hs. Não anotei o nome da cidade. De curioso no local, havia dois ônibus cor-de-rosa de um grupo de suecos que estão viajando pela América do Sul. Eles devem aparecer no Rio de Janeiro – provavelmente no carnaval. E não será coincidência.
A temperatura estava extremamente amena para o Chaco nesta época: 27°Celsius. E pensar que há uns quinze dias atrás a temperatura média por aqui (média!) era de 40°! Escapamos do Infierno Del Chaco!
No posto chegou um grupo de São Paulo. Estavam em seis motos – diversas BMW e uma Suzuki com uma mulher de certa idade – e vinham do Atacama. Disseram que o trecho seguinte da estrada estava bem ondulado e com buracos. Aliás, os cinqüenta km anteriores estavam assim. É preciso tomar cuidado, porque a gente acostuma com aquele asfalto perfeito e de repente começa a pegar uns buracos que podem fazer um estrago.
Bom, na hora de abastecer, aquela muvuca de grupo muito grande e a mulher acabou por cair. Estragou o pisca da Suzuki dela. É por isso que grupo de mais de quatro motos começa a complicar. E pensar que em setembro vamos para a Route 66 em onze ou doze motos...
O quarto trecho teve alguns incidentes.
Logo na saída do posto, reparei que a top-case do Otávio estava com as chaves penduradas. Imaginem o transtorno de se perder as chaves do bagageiro. Simplesmente não dá para tirá-los da moto. Emparelhei para avisá-lo, diminuímos a velocidade, e aí um paraguaio que estava bem atrás grudou na traseira da minha moto. Cheguei a achar que tinha dado uma fechada nele, mas não foi isso que aconteceu. Ele só achou que não tinha que diminuir. Quando percebi, voltei para a pista da direita e tive que ver a mulher do paraguaio esbravejando e fazendo gestos pouco relevantes com a mão. Podia ter dado um acidente. Assim, a atenção máxima é sempre necessária, principalmente nessas retas enormes da Argentina. Como a tocada é razoavelmente tranqüila, há perigo de acontecer alguma distração que – bate três vezes na madeira – pode ser fatal.
A pista também estava muito deformada e tinha mais buracos do que o trecho anterior. Foi quase um tobogã. O Otávio chegou a perder uma água por conta do sobe-e-desce.
Pouco antes do final do destino, a maior confinação de gado que já vi na minha vida. Dos dois lados da pista, milhares e milhares de bois daqueles vermelhos de cara branca (Brangus? Red Angus? Qualquer outro Angus? Só sei que é bom!) que fazem a carne da Argentina ser tão deliciosa.
Tudo correu bem e chegamos em Joaquim V. (V.?) Gonzáles. Exatos seiscentos km de viagem. Horário de chegada: 14:50h. Temperatura: 27,5° Celsius (É, a reza ajudou! Obrigado Senhor!). No posto encontramos Daniel (se eu não me engano, este é o nome dele), um Argentino da Província de Santa Cruz, de uma cidade entre Caleta Olívia e Rio Gallego – ou seja, lá de baixo – que está viajando sozinho e vai para Machu-Pichu. Tiramos uma foto juntos. Também encontramos um trio muito simpático: avó, mãe e filha de Botucatu que faziam sozinhas, de carro, a expedição das três gerações. Admirável! Elas também vão para o Atacama e devemos nos encontrar pelo caminho.
Ficamos no Hotel Colonial: o melhor da cidade. Aceitável e caro para o nível (duzentos pesos). Mas pelo menos tem água quente (que hoje precisamos!) e ar condicionado.
Na cidadezinha, o mesmo esquema de todas na Argentina. À tarde, todos se recolhem. À noite é uma festa só! Todo o povo nas ruas e, principalmente, na praça.
Havia uma festa de Reis, com os três Reis Magos (um estava com cara de bebaço) desfilando em carro aberto. A criançada, apinhada em frente à Prefeitura local, vibrava. A Ju fotografou.
Comemos no único restaurante que encontramos. Toalhas lamentavelmente sujas. Cheio de bichos empalhados. Uma aparência de mapa do inferno ao contrário. Só que vieram uns bifes e umas fritas excelentes. E a cerveja estava trincando. Não tenho medo de afirmar que foi a melhor comida que comi em um lugar tão boca-de-porco, tão sujinho (mas não o Sujinho Chic de São Paulo) como aquele.
Por fim, os veículos. Um caso à parte.
As motos é aquela festa. Trafegam com três, quatro ou mais pessoas. Os carros, caindo aos pedaços com crianças na frente, o rosto grudado no vidro. Sem a menor noção de segurança básica.
O vencedor foi um Peugeot 405 que provavelmente tinha capotado e o dono, simplesmente, cortou o teto fora e fez um conversível! Esses carros transitam pelas ruas da cidade e passam em frente aos policias que os ignoram. É a Lei local, que vale só para os locais, de permissividade ao máximo. Mas é bem interessante.
Prossegue no próximo post. Fotos com a Ju, assim que eu parar de usar o computador. Abreijos. Toni.